Medalha Milagrosa

Santa Maria, Mãe da Estrada!

Os passageiros foram se acomodando e observei um jovem, que iria ocupar um assento ao meu lado, durante uma viagem ao continente africano.

Brasileiro, do interior do Rio Grande do Sul, e essa era sua primeira experiência para o exterior do país. Seu destino: Índia. Havia recebido uma oferta de trabalho e queria tentar a vida em novas terras. Um desafio e tanto, pois apesar de ter algumas noções do inglês, ainda, não dominava essa língua. Conversamos um pouco durante o voo: sua origem, familiares, esperanças e desafios.

Fomos brindado por uma linda aurora, quando deixávamos o deserto da Namíbia. Olhava para meu companheiro e percebia que a preocupação aumentava em seu semblante, especialmente, quando desembarcamos em Johannesburgo, na África do Sul.

Natural! O aeroporto de Tambo é conhecido como a janela do Oriente, pois é lugar de escala para os mais variados países árabes, asiáticos e há uma confluência de etnias, costumes e línguas. Talvez ele medisse, naquele momento, a aventura em que estava inserido. E... quem sabe pensava na sua doce e pequena cidade, gaúcha, escondida entre as serras.

Deixei com o nosso jovem “desbravador” a Medalha Milagrosa, dizendo: Veja bem! Mantenha-a sempre com você, até sua volta ao Brasil. Ela será seu refúgio e sua proteção, tenha certeza. Olhou-me e prometeu firmemente que não a deixaria um só minuto. E nossos caminhos se separaram...

Enquanto espera outro voo para Maputo, pensava em nossos caminhares. Estamos sempre nos deslocando, andando, andando. Pequenos deslocamentos, grandes caminhadas..., não importa. Nossas vidas desde nosso nascimento é um contínuo peregrinar, rumo à pátria celeste.

Essa ideia me acompanharia durante toda estada na capital Moçambicana. Do aeroporto fui diretamente a um enterro. Um jovem de uma família amiga, que subitamente tivera um mal estar. Foi-lhe diagnosticado um derrame cerebral, devido a um problema congênito. Católico praticante, recebeu a Unção dos Enfermos e partiu para a eternidade com sua alegria e juventude habitual, como as flores que encontramos nas savanas, cheias de luzes e cores.

Chegamos a uma casa pobre, entramos em um salão onde no centro se encontrava a urna do nosso querido Helder, muito devoto de Nossa Senhora. À sua volta como numa corola de uma grande flor espalhava-se sentadas no chão mulheres, vestidas com suas capulanas, que rezavam e cantavam. Canto triste que marcava o fim de uma peregrinação. Pungente era observar a mãe, do menino morto, revestida de dor e saudades. A dor da caminhada!

O cortejo fúnebre dirigiu-se ao cemitério e lá os próprios familiares fizeram o sepultamento. Uma cena tocou-me profundamente: A própria mãe ao final, após a terra ser colocada sobre o jazigo, arrumava com suas mãos a sepultura. Havia tanta ternura naquele gesto, nas mãos que acariciavam a terra arenosa, tinha-se a impressão que ela estava arrumando o leito do seu querido filho, como o fizera tantas e tantas vezes em vida.

Esse era o fim de uma caminhada, para aqueles que não têm fé, sim. Sabíamos nós que não é assim. E dentro da separação, a liturgia das exéquias nos apontava a luz da ressurreição: “Bem-aventurados, aqueles que dormem no Senhor”.

Nesse curto espaço de tempo, menos de 24 horas, encontrei dois destinos. O primeiro apontava à conquista, a esperança, a incerteza. O segundo para o termo de um vida colhida naquele Amor, onde nada nos pode separar.

Um denominador comum unia essas duas existências, a nossa existência. É a proteção maternal da Mãe de todas as Mães. Mãe de Deus e Senhora Nossa. Mãe de nossas caminhadas, Mãe que continuamente nos vela, protege, ampara e peregrina conosco noite e dia, dia e noite. Mãe do peregrino, Mãe da estrada!

Pe. Hamilton José Naville

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moises
  -   3 de setembro de 2015

muito interessante!!